sábado, 9 de abril de 2016

ALGUÉM ESTEVE, E ESTÁ, NO MEIO DE NÓS



 Mulher descabelada em palco a berrar frases e palavras de ordem, que vociferam a carga pesada da virulência, aplaudida por um tímido nonagenário.
Jovem magistrado que não hesita em expor-se, publicamente, em protesto político contra pessoa determinada e, assim mesmo, chama a si holofotes para julgar pleito contra ato dessa mesma pessoa.
Holofotes também são acionados por promotores de justiça em exposição midiática para agitar pedido de prisão preventiva contra determinado líder político e, quando a magistrada não recebe tal pleito, dizendo-os sem atribuições funcionais ao que ajuizaram, calam-se esses promotores de justiça, nada dizem, e desaparecem.
São tempos difíceis, mas não devemos temer os tempos difíceis, desde que nós os consideremos como propícios ao aprendizado.
Mas que aprendizado podemos extrair da balbúrdia, do grotesco, do sensacionalismo direcionado e superficial?
Ora, o passo a se dar é justamente esse, posto em indagação: inserir os episódios, que acontecem, num fio condutor, ou dizê-los atomizados, sem qualquer ligação entre si?
Tenho para mim que, na vida, tudo está em contínua interação. Mesmo quem se põe alheio não deixa de fazer referência ao do que se afasta.
Portanto, há sempre o fio condutor, ou mais de um fio condutor, no que se passa.
E qual é o fio condutor nos três fatos, acima abordados?
A total falta de serenidade no responder às indagações do cotidiano.
Realmente, a velocidade é a marca do comportamento do que se convencionou chamar de pós-modernidade: um toque, o digitalizar e o resultado é imediato; consome-se, no ato; usam-se, pessoas e coisas, no instante. O cenário, que assim surge, é o da informação avassaladora, ininterrupta, destituída de qualquer análise ponderada, fundamentada e consistente.
Nunca se informou tanto; se formou tão pouco e se deformou em demasia.
O Papa Francisco, em seus escritos tão cheios de sabedoria, tem nos ensinado muito.
Colho, e ofereço-lhes amigas e amigos leitoras e leitores, trecho presente na Carta Encíclica “Laudato Si”, que considero pertinente:
“222. A espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. É importante adotar um antigo ensinamento, presente em distintas tradições religiosas e também na Bíblia. Trata-se da convicção de que “quanto menos, tanto mais”. Com efeito, a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por menor que seja, abre-nos mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar e saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece, sem nos apegarmos ao que temos nem nos entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres.” ( leia-se Laudato Si – pg. 177 ).
Vejam vocês que nos dias de hoje, e para refrear arroubos emocionais, destemperos apressados, e chamar a atenção daquele que assim se conduz para o equilíbrio no ser, dizemos, popularmente: “menos Fulano, menos...
Assim, aquela mulher não teria se escabelado e vociferado; o magistrado não teria se exposto desnecessariamente e os promotores de justiça não teriam protagonizado incoerência.
Mais uma eloquente passagem da “Laudato Si”, tão apropriada:
“225. Por outro lado, ninguém pode amadurecer em uma sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo. E parte de uma adequada compreensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se em um equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distração permanente e ansiosa ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, em uma pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm a seu redor.” ( leia-se: Laudato Si – pg. 179 ).
Realmente, é fundamental desejar bom-dia para quem pensa de modo diverso do nosso pensar; desenvolver a paciência de ouvir, sem se apressar em redarguir aquele que fala, mesmo que seu falar seja lento, ou repetitivo; por-se no lugar de quem é diferente de nós e, assim, viver o próximo não como alguém que está fora de nós, mas que é o nosso “outro eu”, por isso que nos envolvemos com ele.
Alguém esteve, e está, no meio de nós, sempre nos oferecendo o seu viver: Jesus Cristo.

                                            Paz e Bem!




domingo, 13 de março de 2016

A CONSTITUIÇÃO E O MINISTÉRIO PÚBLICO: reflexões necessárias.

                                                     
A Constituição federal de 1988 definiu o Ministério Público como instituição essencial ao regime democrático, que lhe cumpre defender, porque na Democracia abre-se pleno espaço ao exercício dos direitos individuais e comunitários.
Instituição que, é seus membros – promotoras e promotores, procuradoras e procuradores – devem ter bem presente que o trabalho institucional não condiz com arroubos espetaculares, protagonismos em demasia, exaltações midiáticas e prejulgamentos.
Se a imprensa, no papel que assume de difundir o furo jornalístico, o estrépito posto em manchete, adota meios condizentes a esse propósito, todavia o compromisso institucional dos membros do Ministério Público orienta para o saber assumir o controle da situação: conduzir, não se deixar conduzir. Prestar, sim, contas à sociedade do desempenho de sua missão constitucional, mas sempre, e quando tenha formado sua convicção serena, fundada e objetiva, afastando-se do emitir juízos meramente opinativos, vale dizer, advindos e carregados de ilações puramente noticiosas.
A propósito, não se pode, em primeiro lugar, confundir figuras processuais absolutamente distintas: a testemunha, o indiciado, o réu. O que é lícito aplicar a um é ilícito aplicar a outro. Todos, porém, sob a proteção da lei e mediante o devido processo legal adequado a cada hipótese e situação.
Lembre-se, ainda, que não existe a figura equivocadamente chamada de investigado. O que legitimamente se investiga é o fato; não a pessoa. Se para leigos e a mídia pouco informada é compreensível a confusão, isso, porém, é inaceitável para um magistrado ou membro do Ministério Público. Escolher um suposto “criminoso” e a partir daí “investigá-lo” e constrangê-lo para descobrir supostos crimes é inverter a lógica legal e afrontar princípios fundamentais de Direito Processual e Penal. É puro arbítrio, que a ordem jurídica condena e sanciona.
Condução coercitiva e prisão preventiva igualmente não se confundem.
Não se nega a existência do instrumento da chamada condução coercitiva. É cabível, porém, exclusivamente quanto à testemunha recalcitrante, isto é, a que, tendo regularmente sido intimada a prestar depoimento na forma e nas hipóteses legalmente previstas, tenha se recusado injustificadamente a atender à convocação.
Quanto à prisão, é cabível unicamente para o réu ou o indiciado, e não para a testemunha.
 O manejar a restrição preventiva à liberdade em quadro de provisoriedade – quando as instâncias de conhecimento e recursal ordinária não tenham positivado o juízo de condenação – pede cautela.
A cautela se expressa na resposta clara às três indagações processuais para isso autorizar: há risco de fuga do indiciado ou do acusado? Ele tem a seu dispor o prejudicar a apuração dos fatos porque é capaz de coagir testemunhos, destruir provas? A conduta, em apuração, é de grave comprometimento da paz social?
Por certo que as respostas, se positivas, a essas indagações não se sustentam caso signifiquem conclusões abstratas, de “viés profético”, ou de “puro achismo”.
O utilizar-se, inapropriadamente, de qualquer desses instrumentos jurídicos a compelir testemunha, indiciado ou réu a prestar depoimento à margem do devido processo legal é de todo inadmissível. Impõe-se destacar, aliás, que o texto constitucional é claríssimo no garantir o princípio de que “ninguém pode ser obrigado a se auto-acusar”, inclusive propiciando estardalhaço no cumprimento da medida. Efetivamente isso não aproveita em nada a um processo válido, antes mancha a verdade institucional do Ministério Público.
Em síntese, procedimentos assim afrontosos à ordem constitucional ou legal sequer podem ser tidos como condução coercitiva ou prisão cautelar. Que o diga o juízo isento e competente para isso.
Que a atuação do Ministério Público contra a corrupção prossiga validamente, instaurando-se e ampliando-se os procedimentos legítimos e necessários e conduzidos de modo exemplar e amplo, sem seletividades, vieses ou desvios. É o que a lei impõe e a sociedade exige, para que não se convertam em meros instrumentos de perseguição, sensacionalismo e facciosismo nos chamados espaços e horários “nobres” da mídia.
Os que subscrevem este texto dedicaram, senão sua vida funcional toda, mas grande parte dela ao Ministério Público, e o fizeram em momentos decisivos de sua história.
Como não nos calamos antes, não podemos nos calar agora, porque o que nos move é propiciar reflexão madura e serena sobre os acontecimentos presentes na sociedade brasileira.
Jamais as soluções arbitrárias e ditatoriais, sempre o debate franco, respeitoso e claro: só assim aprendemos e vivemos Democracia.

Claudio Lemos Fonteles – Ex-Procurador-Geral da República.

Alvaro Augusto Ribeiro Costa – Ex- Presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

“Eu disse que, independentemente disso, ela ia ser feliz.”

Dois burocratas da Organização das Nações Unidas, a ONU, valendo-se do estrépito midiático, e a pretexto de se posicionarem sobre os casos de microcefalia, bradam pela eliminação dos fetos, em tal situação, conclamando países a que franqueiem as práticas abortivas.
É estarrecedor o nível de insensibilidade e de irresponsabilidade atingido em tal proceder.
Cientistas do mundo todo, debruçados ainda estão à busca da melhor compreensão desse fenômeno e esses arautos – que ironia, incrustados nos serviços de promoção dos direitos humanos da mencionada organização internacional - já sentenciam o que se há de fazer: matar as vidas humanas presentes em gestação.
Como sempre se escapa para o que se faz “up to date”, “politicamente correto”, sob o frívolo argumento de que somos “atrasados” ao não adotarmos essa solução, e assim fica obscurecida, e esquecida, primeira e necessária crítica aos governantes.
Com efeito, a proliferação do mosquito “aedes” está na razão direta da indesculpável negligência desses governantes em priorizar os temas de educação e saúde, só usados demagogicamente nas proximidades dos pleitos eleitorais, centrando as políticas de governos em faraônicas obras, expressão eloquente do nefasto conluio empreiteiros-governantes, de que se faz exemplo notório o nosso Brasil, sob a batuta glacial do sistema econômico-financeiro, que tudo quantifica, que tudo reduz a números, inclusive nossas próprias vidas, que não mais têm valor em si, mas que unicamente valem pelo que podem, materialmente, produzir.
Nesse quadro encaixa-se, perfeitamente, o simplismo na decisão dos burocratas da ONU.
Hoje, tudo se faz rápido: como eu quero, quando eu quero, onde eu quero. Nada, nem ninguém, me ouse estorvar.
“O médico disse que minha filha não ia andar, sorrir, falar. Eu disse que, independentemente disso, ela ia ser feliz.”
Gilcinea Rangel Pecenti, mulher e mãe, não desistiu de Luana quando, no 7º mês de gravidez, ao diagnóstico de microcefalia somou-se a identificação de paralisia cerebral.
Luana é hoje adolescente de 16 anos. Vale a pena ler a reportagem publicada pelo jornal “O Globo”, do domingo passado, dia 7, na página 3, e encantar-se com o gesto e sorriso largos – “o médico disse que ela não sorriria” – de Luana e a tão intensa alegria de sua mãe Gilcinea.
Agora, e a partir dessa matéria jornalística, outra constatação: acovardam-se governantes que, diante dessas situações, não ordenam à área de saúde, que comandam, imediatas e eficazes medidas de acesso a medicação e tratamento gratuito a todas essas vidas quer no momento intra-uterino, quer extra-uterino. Dinheiro há, sim, e de sobra. Basta que não escorram, diuturnamente, pelos lava-jatos, mensalões dos dias de hoje e cartas circulares – CC nº 5- ( escândalo do BANESTADO) do passado, e tantas e tantas outras situações, nesse festival ininterrupto da nefasta corrupção.
O jornal “O Estado de São Paulo”, anteontem, segunda-feira, dia 8, na editoria de saúde destacou que “a evolução de crianças com microcefalia depende de repetição e paciência.” Sintetiza, com objetividade, que:
“O caminho não é fácil, e ninguém diz que é, mas para quem tem a sorte de receber o tratamento e os incentivos adequados desde o nascimento, a vida com microcefalia pode ser longa, saudável e, por que não, feliz”.
Lamentavelmente vive-se o tempo da absolutização da estética e do menosprezo da ética.
Encerro com palavras plenas de sentido do Papa Francisco, escritas em sua tão valiosa Carta Encíclica “Laudato Si sobre o cuidado da casa comum”:
“Quando, na própria realidade, não de reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos – dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base de sua existência, porque em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba por provocar a revolta da natureza.
118.Esta situação leva-nos a uma esquizofrenia permanente, que se estende na exaltação tecnocrática, que não reconhece nos outros seres um valor próprio, até à reação de negar qualquer valor peculiar ao ser humano.” ( leia-se: Carta Encíclica Laudato Si nº 117/118 – pg. 96/97 ).




         

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

AH! SE NÓS PUDÉSSEMOS

                                    

Homens há que tornam públicas cartas privadas, que escrevem, e que – tamanha lástima – revelam os apegos que têm a cargos públicos e ao loteamento dos mesmos para sempre gravitarem em torno de benesses espúrias.
Homens há que, transtornados pela insaciável sede de poder, maquinam ininterruptamente, engendram cotidianamente, esquemas ardilosos, valendo-se de um séquito de capachos, que lhe são agregados por inconfessáveis razões, irmanados todos em sucessão de barganhas.
Homens há que conspurcam até mesmo as práticas esportivas, enlameando atividades que deveriam se notabilizar pela competição transparente e cavalheiresca – o fair play -, transformando o que é sadia expressão de vida para todas as gerações em balcão corrupto de negociatas.
Homens há que, pelo mister profissional que desempenham, deveriam conduzir-se com discrição e cingir-se a pronunciamentos objetivamente fundamentados, mas resvalam para o estrelato e alimentam a ávida e superficial mídia jornalística com inadequadas afirmações porque carregadas de subjetivismo marcadamente emocional e rancoroso.
O Natal é o tempo propício para que não pactuemos com esse estado de coisas.
Não para que nos revoltemos, não para que percamos a esperança e nos tornemos lamurientos pessimistas, não para que execremos e excluamos essas pessoas.
O Natal, que é nascimento, é sempre a certeza do novo e a possibilidade presente, e real, do que nos escapa, mas que podemos alcançar: o imponderável que ultrapassa o inexorável.
Para valer-me do Papa Francisco, em escrito na Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia:
“Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, no comodismo que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói.” (Bula de Proclamação nº 15).
Sim, a indiferença, o comodismo e o cinismo obscurecem e impedem o sopro (= espírito) que a filiação divina nos legou, e que habita em nós, para que não desanimemos, para que, impulsionados, estejamos, sempre, não importa a dimensão do espaço atingido, mas estejamos, sempre, em missão.
Natal é despertar para a missão, e seguir.
Aliás, o convite do Deus-Amor é simples e definitivo: “segue-me”.
Jesus é o peregrino e o peregrino não se detém.
Deixo para vocês, leitoras e leitores de tanta paciência para comigo, como presença, não como presente, de Natal, essas palavras de D. Helder Câmara, lidas no livro “Um olhar sobre a cidade”:
“Se eu pudesse, à noite, no caminho das pessoas desanimadas, pessimistas, amargas, revoltadas contra tudo e contra todos, arranjaria roda de crianças brincando e cantando...
Se eu pudesse, na hora mais dura do enterro, quando o caixão é colocado terra adentro, eu faria com que voasse sobre as cabeças dos presentes um bando de passarinhos lembrando a Ressurreição.
Se eu pudesse na caminhada de quem enfrentasse estradas sem fim, sem luz, sem companhia, faria surgir vaga-lumes alumiando o caminho.
Se eu pudesse, daria ao arco-íris a força mágica de desfazer ódios, intrigas, divisões, de modo que ele valesse, de fato, como sinal de entendimento, de amizade e de paz.
Ah! Se eu pudesse! E se vocês pudessem, o que aconteceria?”


domingo, 29 de novembro de 2015

LAUDATO SI (IV)


“105. Tende-se a crer que toda a aquisição de poder seja simplesmente progresso, aumento de segurança, de utilidade, de bem-estar, de força vital, de plenitude de valores, como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia. A verdade é que o homem moderno não foi educado para o reto uso do poder, porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência”. (Laudato Si pg. 85/86).
Que trecho tão admirável do Papa Francisco, constante do Capítulo III da Carta Encíclica “Laudato Si”, porque responde, com exatidão, a perguntas que nos ocorrem, tão presentemente: por que o desastre ecológico em Mariana? Por que a insana atitude de descarregar armas em irmãs e irmãos, eis que habitamos todos a casa comum, em ruas de Paris? Por que a compra e venda de comportamentos patrocinada por inescrupulosos políticos em Brasília?
Linhas adiante ao texto acima transcrito, o Papa Francisco como que, e coerentemente, sintetiza em conclusão:
“O ser humano não é plenamente autônomo. A sua liberdade adoece quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para controlá-lo. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, de uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si”. (Laudato Si, ainda nº 105 – pg. 86/87).
A propósito de lucidez, ocorre-me, aqui e agora, relembrar definição, a meu juízo, perfeita de Albert Camus:
“A lucidez supõe a resistência às tentações do ódio e ao culto da fatalidade.”
Vivemos o tempo das satisfações materializadas, epidérmicas, centralizadas na absolutização do eu, incontrolado. Não se deve resistir a nada. Somos movidos pelos impulsos vorazes, alimentados massivamente pela propaganda midiática do sucesso, ainda que provisório, ainda que passageiro: não importa, sou produzido para o encantamento mágico de sentir-me na “crista da onda”.
Ora, o ato de “resistir às tentações” é o significado eloquente de termos sido educados em valores que dignificam a pessoa, por isso que não podem ser abandonados. Valores que testemunham, cotidianamente, a integridade de caráter, a honestidade, a seriedade, a solidariedade, o empenho na construção do bem comum. Valores que nos irmanam.
Não se render ao “culto da fatalidade” é, corajosamente, abdicar do “deixar-se levar no cínico anonimato do todo mundo age assim”: não aceitar que seja tragado pelo “mass-midia” e seja dissolvido na multidão amorfa; é, consciente e equilibradamente, não calar suas posições, abrir-se ao perene diálogo, sempre duvidar do politicamente correto e, assim, impedir que situações fabricadas definam o convívio social. Este, o convívio social, há de ser dinamicamente realizado na expressão histórica daqueles valores “que testemunham, cotidianamente, a integridade de caráter, a honestidade, a seriedade, a solidariedade, o empenho na construção do bem comum”.
Importa, então, fazer-se artífice incansável da “civilização do amor”.
O absoluto existe. O amor expressa a certeza desta afirmação. Eis porque na 1ª Carta aos coríntios disse S. Paulo:
“O amor jamais acabará... Agora nós vemos num espelho, confusamente; mas, então, veremos face a face. Agora, conheço apenas em parte, mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido. Atualmente, permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor”. (Bíblia Sagrada – tradução da CNBB – edição comemorativa dos 500 anos da evangelização do Brasil e dos 50 anos da Conferência Episcopal – pg. 1500 e 1501).
Diz bem o Papa Francisco:
“Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos -, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência porque em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba por provocar a revolta da natureza”. (Laudato Si nº117 – pg. 96/97).
E definitivo:
“Se não há verdades objetivas nem princípios estáveis, fora das aspirações próprias e das necessidades imediatas, que limites pode haver para o tráfico de seres humanos, a criminalidade organizada, o narcotráfico, o comércio de diamantes ensanguentados e de peles de animais em vias de extinção? Não é a mesma lógica relativista a que justifica a compra de órgãos dos pobres com a finalidade de vendê-los ou utilizar para experimentação, ou o descarte de crianças porque não correspondem ao desejo de seus pais? É a mesma lógica do usa e joga fora que produz tantos resíduos, só pelo desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade.Portanto, não podemos pensar que os programas políticos ou a força da lei sejam suficientes para evitar os comportamentos que afetam o meio ambiente, porque, quando é a cultura que se corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objetiva ou quaisquer princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar”. (Laudato Si nº 123 – pg. 100/101).
Encerro, parodiando Albert Camus:
“A lucidez supõe a submissão da técnica à ética”.

       

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

LAUDATO SI (III)

                                   
“Dizia São Boaventura que, através da reconciliação universal com todas as criaturas, Francisco voltara de alguma forma ao estado de inocência original. Longe desse modelo, o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza”. (Laudato Si, nº 66, pg. 55 – edições Paulinas).
Tão apropriado esse trecho, praticamente abrindo o Capítulo II, da Encíclica Laudato Si, capítulo que se intitula: “Evangelho da Criação”.
Sim, “a Boa Nova” (=Evangelho) é também saber que, com todas as criaturas, tal nós também o somos, formamos a vida em integração contínua, por isso que a leitura da passagem do Gênesis a propósito da Palavra de Deus: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão” (Gn 1, 28 tradução da Bíblia da CNBB), não pode ser leitura fundamentalista da supremacia prepotente da mulher e do homem sobre os demais seres da natureza, mas leitura que promova a incessante comunhão no “sentir-se reconciliado” e, assim, sem divisões ou inimizades, sentir a paz como expressão da inocência.
Sentir-se em paz é sentir-se acolhido e integrado.
É o que a vida nos pede: acolher e integrar todos e tudo.
Então, diz muito bem o Papa Francisco:
“A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses”. (Laudato Si, nº 75, pg. 62 – edições Paulinas).
O Deus-Amor, justo porque é pleno amor, nada impõe.
O Deus-Amor, por sua Palavra que é o Cristo Jesus – “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós”, do Evangelho de São João, capítulo 1, versículo 14 – tudo criou, “não do caos nem do acaso” (Laudato Si nº 77, pg. 63 – edições Paulinas), mas porque o amor não é solidão, necessariamente tem que criar e tem que se comunicar, para propor, para oferecer às suas criaturas – mulheres e homens – a vida em abundância, construída paulatinamente em atos de livre opção. Por isso, São Paulo diz aos gálatas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. (Gl 5, 1).
E a liberdade cristã, se define a mulher e o homem como seres únicos e irrepetíveis, todavia não considera a nossa unicidade e a nossa irrepetibilidade para a exaltação do egoísmo pessoal, enclausurado no self made man (=o homem feito exclusivamente por si mesmo), mas como  atributos pessoais e próprios, justamente para que assim sejam oferecidos aos demais, partilhados com os demais.
Torno às sábias palavras do Papa Francisco:
“86. O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus. Santo Tomás de Aquino sublinhava, sabiamente, que a multiplicidade e a variedade provem da intenção do primeiro agente o qual quis que o que falta a cada coisa para representar a bondade divina, seja suprida pelas outras, pois a sua bondade não pode ser convenientemente representada por uma só criatura”. (Laudato Si, nº 86, pg. 70 – edições Paulinas).
Toda a atitude de açambarcar, todo comportamento de dominar, todo o conduzir-se que se centraliza no absoluto poder, no absoluto prazer, no absoluto possuir é degradante e, no nosso Brasil, o cotidiano da corrupção e do desprezo à vida, pelas mais variadas formas, é o eloquente retrato do obscurantismo porque estampa o servilismo à coisificação a ponto de alcançar a própria coisificação do ser humano.
Eu já não sou; eu compro e vendo, inclusive a mim mesmo.
Mais uma vez, o Papa Francisco:
“Deixamos de notar que alguns se arrastam em uma miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer o que fazer com o que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que os outros, como se tivessem nascido com maiores direitos.” (Laudato Si, nº 90/91, pgs. 74/75 – edições Paulinas).
Com toda coerência, o ensino social da Igreja católica, consolidado no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, infelizmente desconhecido por expressiva quantidade de leigos e religiosos católicos – se o lessem e o pusessem em prática, certamente nossa casa comum estaria em condições muito melhores – enfatiza o princípio do bem comum como um dos seus pilares na construção de sociedade verdadeiramente humanista.
Pelo princípio do bem comum: “a responsabilidade de perseguir o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois o bem comum é a razão de ser da autoridade política”. (Compêndio da Doutrina Social da Igreja nº 168 – pg. 103).

No Brasil, e já há bom tempo, quão longe estão nossos representantes políticos desse fundamental ensinamento. Nós, e está em nossas mãos, pelo contínuo exercício da participação política consciente, devemos exercer a cidadania ativa porque, se não o fizermos, os que nos representam sentir-se-ão como nossos senhores, e não o são. Aqui, o tema é vasto e propiciaria novo artigo, mas para que eu próprio não incida na crítica que faço ao imobilismo de nossa cidadania, a vocês, amigas e amigos leitores, nos espaços de atuação de cada qual, eu proponho que nos engajemos na adoção de primeira, e concreta, medida: que todos nos irmanemos pelo fim da reeleição em todos os níveis – municipal, estadual e federal – e pelo fim da sucessão familiar de quem foi eleito para um único mandato.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

LAUDATO SI ( II )

                                           
Prosseguindo em nossas reflexões sobre essa fundamental Carta Encíclica do Papa Francisco, seu Capítulo I aborda: “o que está acontecendo com nossa casa”.
Marcando que nosso tempo é tempo acelerado – rapidación é o termo em espanhol de que se vale  Francisco – diz, com propriedade, o Papa:
“... os objetivos desta mudança rápida e constante não estão necessariamente orientados para o bem comum e para um desenvolvimento humano sustentável e integral. A mudança é algo desejável, mas torna-se preocupante quando se transforma em deterioração do mundo e da qualidade de vida de grande parte da humanidade”. (LS nº 19 – pg. 17/18).
A exasperação tecnológico-financeira arvora-se na solução única dos problemas.
Ledo engano porque esse comportar-se reducionista e unilateral menospreza a compreensão da pluralidade, da interação das múltiplas e variadas relações, que só no encontro do que é diverso propicia o sentir e conhecer a harmonia a que a nossa casa, verdadeiramente, se faça a casa comum.
Diz bem Francisco:
“Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrônicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”. (LS nº 21 – pg. 19).
A ótica da quantidade desproporcional, pretensamente justificada pela acessibilidade para tantas e tantos, efetivamente mascara o desejo voraz de produzir e consumir incessantemente de modo que tudo conflua para essa espiral de troca contínua de coisas, e assim também todos nós nos coisificamos, naturalmente.
Elucidativa passagem do Papa Francisco, a propósito:
“Mas, contemplando o mundo, damo-nos conta de que este nível de intervenção humana, muitas vezes a serviço do sistema financeiro e do consumismo, faz com que essa terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avançar sem limite. Assim, parece que nos iludimos de poder substituir uma beleza irreparável e irrecuperável por outra criada por nós.” (LS nº 34 – pg. 30).
A intensa massificação não pode significar o aniquilamento do eu; não pode significar a perda da identidade pessoal, cultural, religiosa.
O discurso de São Paulo, no Areópago ateniense, manifestando o Deus-Amor como princípio e fim de todos e de tudo – “tendo estabelecido o ritmo dos tempos e os limites de sua (= da espécie humana) habitação (Atos dos Apóstolos 17, 26) – enfatiza a plena comunhão na formação do nós a partir e como fruto do existir de cada qual. Diz, então, São Paulo:
“Assim se fez para que buscassem a Deus e, talvez às apalpadelas, o encontrassem a ele que, na realidade, não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas”. (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).
Francisco, também:
“Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros. (LS nº 42 – pg. 34).
Sou, para que todos sejamos.
Não podemos aceitar que nos considerem como números, que nos manipulem, que nos tenham como massa de manobra.
O Papa Francisco ensina-nos em trecho tão marcante e perfeito da “Laudato Si”:
“A isto vem juntar-se as dinâmicas dos mass media e do mundo digital, que, quando se tornam onipresentes, não favorecem o desenvolvimento de uma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não em uma deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, em uma espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir. (EG nº 47 – pg. 36/37).
O arremate, como o ponto central desse Capítulo I da Carta Encíclica “Laudato Si”, está  em que não se pode dissociar da abordagem ecológica a abordagem social.
“Mas, hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres. (LS nº 49 – pg. 39).
E o Papa Francisco apresenta o testemunho dos bispos da Patagônia-Comahue, testemunho veraz e concreto, que retrata cenário eloquente nas áreas subdesenvolvidas, ou em desenvolvimento, no mundo inteiro:
“Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são  multinacionais, que fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento de algumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e algumas poucas obras sociais que já não se podem sustentar”. (LS nº 51 – pg. 42)
Está saturado esse modelo centrado no exclusivismo do mercado financeiro, que tem como primado o economicismo tecnocrata e tecnológico.
Encerro com palavras exatas do Papa Francisco:

“Há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o atual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ação humana. Se o olhar percorre as regiões do nosso planeta, percebemos depressa que a humanidade frustrou a expectativa divina”. (LS nº 61 – pg. 49/50).