quarta-feira, 20 de agosto de 2014

IGREJA E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA ( I )

                

Pessoas diversas têm me solicitado assumir posicionamento sobre o Projeto de Lei de Iniciativa Popular, denominado: “Reforma Política Democrática e Eleições Limpas”.
Esse Projeto vem patrocinado por inúmeras entidades da sociedade civil, inclusive pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB -, do que desponta, e de plano para os que me indagaram, prévia questão: deve a Igreja envolver-se em tal assunto? ou, em linguagem mais direta, deve a Igreja envolver-se com a política?
O Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, com muita clareza, afirma, no Capítulo I, desse seu escrito, justamente chamado “A Transformação Missionária da Igreja”, e no tópico I, sintomaticamente intitulado: “Uma Igreja em saída”:
“Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.” ( leia-se: A Alegria do Evangelho – nº 20 – pg. 20 ).
E, tornando à fonte primacial – o Concílio Vaticano II – perfeitamente coloca o Papa Francisco:
“O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: Toda a renovação da Igreja consiste numa maior fidelidade à própria vocação... A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma perene. Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma.”  (leia-se: A Alegria do Evangelho – nº 26 – pg. 25).
A referência, como feita ao Concílio Vaticano II, é exata.
A Gaudium et Spes – Alegria e Esperança -, “constituição pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo de hoje”, que condensa as diretrizes para o impostergável e perene diálogo Igreja – Mundo, no seu proêmio deixa por bem assente que o homem todo, em sua realidade integral, ocupa o centro da missão cristã. Diz o proêmio:
“1. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.” ( leia-se: Gaudium et Spes – proêmio – nº 1 – pg. 6 ).
Eis porque, esse mesmo documento, em sua Introdução, afirma:
“4. Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado a cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura e da relação entre ambas.” (leia-se: Gaudium et Spes – introdução – nº 4 – pg. 9 ).
E a Gaudium et Spes abre todo um capítulo – o Capítulo IV – dedicado à “Vida da Comunidade Política”, e dele destaco, porque muito pertinente, o seguinte trecho:
“Os que são ou podem tornar-se aptos para exercer a difícil e muito nobre arte da política, preparem-se para ela; e procurem exercê-la sem pensar no interesse próprio ou em vantagens materiais. Procedam com inteireza e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o arbitrário domínio de uma pessoa ou de um partido e contra a intolerância. E dediquem-se com sinceridade e equidade, e mais ainda com caridade e fortaleza políticas ao bem de todos.” ( leia-se: Gaudium et Spes - nº 75 – pg. 107/108 ).
Considero, até como culminância de toda essa linha de pensamento, que desenvolvo, precisos esses ensinamentos do padre Mario de França Miranda, presente no seu livro Igreja e Sociedade:
“Hoje já se reconhece que as religiões têm algo a oferecer à sociedade civil. São elas que denunciam a marginalização a que são condenados os mais pobres, bem como as injustiças de políticas econômicas. São elas que oferecem uma esperança que sustenta e mobiliza os mais fracos. São elas que, livres de um dogmatismo doutrinário e impositivo, oferecem motivações e intuições substantivas ( e não apenas funcionais ) para as questões sujeitas ao debate público. São elas que, numa sociedade neoliberal e prisioneira de uma racionalidade funcional, em busca de resultados, desmascaram a frieza burocrática e tecnocrática apontando os efeitos devastadores de certas decisões. São elas que, para além das macrossoluções milagrosas, apontam para a responsabilidade de cada um e para a imprescindível rejeição de um individualismo cômodo, sem as quais a ética na vida pública ou o problema ecológico não serão solucionados. Aqui a sabedoria religiosa talvez possa ser mais eficaz do que muitos discursos dos tecnocratas.” ( leia-se: Igreja e Sociedade – pg. 139/140 ).
Em conclusão: não vivem o ensinamento evangélico, antes o contrariam, cristãos católicos que tomam como guia a expressão: “A Igreja não deve se envolver com política”.
Portanto, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – muito bem se conduz quando, na equilibrada ponderação dos temas fundamentais à construção da sociedade brasileira justa e solidária, por si mesma, ou se aliando a entidades diversas, ainda que, dentre essas, algumas em questões outras se distanciem de sua compreensão, propõe e incentiva os cristãos católicos do Brasil a, concretamente, engajarem-se na coleta de assinaturas à formulação de projetos de lei de iniciativa popular.
Passo, agora, ao Projeto “Reforma Política Democrática e Eleições Limpas”.
Ele trata do sistema das eleições proporcionais; do financiamento das campanhas eleitorais e da forma de subscrição de eleitores a proposições de lei de iniciativa popular.
As eleições proporcionais passam a ocorrer em dois turnos. No primeiro, não se vota em pessoas, mas nos partidos, que obrigados estão a apresentar o conteúdo de seu programa e a lista fechada de candidatos. Isso, a meu juízo, é salutar, na medida em que promove a adesão do eleitor, não em função do protagonismo do candidato, mas da agremiação partidária e suas propostas, daí porque o Projeto, com coerência, deixa por bem assente que “o mandato pertence ao partido político”, e não ao eleito, deste modo extinguindo-se com o nefasto “troca-troca de partidos por parte de políticos inescrupulosos, perdendo o mandato “aquele que se desfiliar do partido  político para o qual foi eleito”.
No segundo turno, o partido então apresenta a relação dos candidatos, que constavam da lista preordenada, apresentada no primeiro turno, mas agora nela constando só os nomes dos que tenham se posicionado na numeração correspondente ao dobro das vagas conquistadas pelo partido no primeiro turno.
O Projeto torna obrigatória, na formação da lista preordenada, a observância “da alternância de sexo”, com o que, validamente, consagra-se a paridade de oportunidade mulher-homem nas candidaturas e, nas eleições primárias internas à formação da lista preordenada, é marcada a obrigatoriedade de acompanhamento de todo esse procedimento por servidor estável da Justiça Eleitoral, designado pelo Juiz eleitoral, abrindo-se o evento à presença do Ministério Público.
Este artigo já se faz longo para os meus padrões e estilo – busco ser conciso e objetivo no que escrevo – de modo que, e desejando a compreensão dos que o leem, desenvolvo-o e o concluo na próxima semana. 
  

                  

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

CONSTRUTORES DA PAZ E DO BEM

                        

Impossível não voltar a se perturbar, a se revoltar, com as cenas reproduzidas de corpos infantis dilacerados e mortos, com os gritos lancinantes de dor de tantos corações femininos, de esposas e mães, com os olhares, vazios e perdidos de anciãos, que em ciclo final da existência humana vagam porque tudo o que construíram foi-lhes tirado.
Deparo-me com as palavras do Papa Francisco na sua admirável Exortação Apostólica, “A Alegria do Evangelho”:
“49. Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: Dai-lhes vós mesmos de comer. ( Mc. 6, 37)”. ( leia-se: A Alegria do Evangelho – nº 49 – pg. 42/43).
Necessitamos já, com urgência, e cada vez mais universalizarmos o bem.
Universalizarmos o bem não é sair à cata de adeptos, ou fazer proselitismo, ou ditar as normas em que nos sistematizamos.
Universalizarmos o bem requer, de plano, o olhar completo para nós mesmos e, então, nos questionarmos: reduzo-me, exclusivamente, aos interesses pessoais do trabalho a conquistar e de posições a galgar, ou aos frutos do trabalho conquistado no deleite do tanto que agora posso ter? A mim, não me interessam questionamentos e posicionamentos comunitários, comprazendo-me, estritamente, com os “meus”: familiares e círculo de amizade onde gravito, ou que gravitam em torno a mim? Enclausuro-me nos meus “dogmas” e a quem quer que os contradiga, enfureço-me, sou capaz de agredi-lo, verbal e mesmo fisicamente, incapaz de oferecer-me em diálogo?
Talvez você, leitora e leitor que até aqui tenha tido a benevolência de ler o que estou a escrever, encerrará a leitura agora, quando lhe digo que se nós nos autorreferenciarmos, nos absolutizarmos, nos padronizarmos nos rituais do cotidiano, por esse modo nós alimentamos o estado de coisas, que motivou o primeiro parágrafo deste artigo.
Todos nós, vivendo, colocando concretamente em prática, os carismas - dons do Deus-Amor que não só Se entrega por nós, mas, graças aos carismas que Ele nos dá, assim nos capacita para a transformação do mundo em que estamos - pomo-nos em “estado permanente de missão” (Documento de Aparecida – nº 551), vale dizer: construtores somos da paz e do bem.   

                     

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Vida que segue

                                                
“Vida que segue”, expressão tantas vezes ouvida quando dissabores, infortúnios e fortes tristezas acontecem.
Sim, “vida que segue”, mas necessário se faz que o que passou não seja, simplesmente, descartado como algo inútil, ou que se deva esquecer.
“Vida que segue”, mas a partir do aprendizado do que se viveu.
Bem recentemente, todos quantos gostam de esporte, especificamente de futebol, experimentaram grande dissabor.
Em competição a nível mundial, nossa, dita seleção, foi medíocre, avassaladoramente medíocre.
Reflitamos, portanto.
O comando do futebol, a melhor dizer, de todas as modalidades esportivas em nosso País, é confiado a associações privadas cujos mandantes – creio que o melhor termo seja mesmo esse: mandantes – são pessoas que mandam e desmandam arbitrariamente; perpetuam-se no mando, por décadas; utilizam-se dessas entidades para o enriquecimento pessoal em inescrupuloso compadrio. Apesar de manejarem verbas públicas e desenvolverem atividades que atingem patamar nacional não se sujeitam a qualquer controle.
Permanecendo esse o quadro, nos contentaremos com espasmos de vitoriosas conquistas dentro de realidade marcada pelo desempenho ruim, quando não pífio, situação típica de País desorganizado e amador.
Urge que se fixe período único, vedada a recondução, período definido no quadriênio, findo o qual tais pessoas necessariamente retirem-se da direção dessas entidades, e aconteça, então, a imprescindível e contínua renovação de pensamento e ação.
Urge que a direção monocrática dessas entidades – a presidência – seja desfeita e, em seu lugar, a direção das mesmas passe a consolidar-se em colegiado – comissão diretora – integrado por um representante dos atletas da modalidade esportiva; um representante dos técnicos e um representante das associações esportivas em causa: a direção em triunvirato.
Urge que se legitime o Ministério Público, dada a inserção de verbas públicas a subsidiar ações dessas entidades e a emigração descontrolada de jovens brasileiros para o exterior, para o exercício do controle externo sobre essas entidades, com todos os consectários disso decorrentes, ou seja, a provocação do Poder Judiciário sempre que necessária a adoção de medidas judiciais a que seja sanado o descontrole, a irresponsabilidade e a má-fé na gestão dessas entidades.
Reflitamos, ainda:
O culto, provocado pelo sensacionalismo midiático, ao egocentrismo, ao chamado craque – e quantos craques mensais, e mesmo quinzenais, grande parte da mídia esportiva não se cansa de “produzir” -, traduzido na máxima: “a seleção é Fulano e mais dez”; esse culto, quase que idolátrico a ocupar mentes desavisadas, propicia eloquente desserviço.
Trago, aqui, porque as tenho por oportunas e sábias, palavras do Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica: “A Alegria do Evangelho”:
“2. O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros...” ( consulte-se: A Alegria do Evangelho – pg. 3/4 ).
Aí está: certamente que nos esportes coletivos – futebol, vôlei, basquete, etc. – um, ou mais de um, atleta se sobressai dos demais por sua qualidade técnica, mas esse dado, até óbvio dada a especificidade das aptidões entre as pessoas, que felizmente as impedem de serem tratadas massivamente, em bloco supressivo das individualidades, esse dado, repito, jamais há de autorizar o endeusamento, o estrelato superficial, vazio e inútil do “herói da partida”.
Heróis são todos os que se dispuseram ir ao campo, ir à quadra, e, praticando sadiamente o esporte, buscar a vitória.
A expressão, aqui já mencionada sob o enfoque futebolístico – “a seleção é Fulano e mais dez” – é superada, e desaparece irrefragavelmente diante da sabedoria popular que dita: “ uma andorinha só não faz verão”.
Mister se faz que tenhamos sempre em mente a equipe, o conjunto de atletas, o esforço coletivo, e se se tem a necessidade da escolha do melhor, que a escolha se faça como que a premiar o que melhor refletiu o conjunto, e o escolhido se sinta como a síntese de todos os demais companheiros no jogo realizado.
Quem sabe assim, de par com o desejo, natural e válido, a animar o atleta de obter proveito pessoal para si, e para seus familiares, mais das vezes a que consiga ultrapassar nível da crônica desigualdade econômica e social em que está inserido, esse mesmo atleta possa compreender o inestimável valor de ser em conjunto, do jogar coletivamente, da responsabilidade social de suas ações. A propósito, nunca é demais rememorarmos as palavras do Papa Francisco, presentes em outro trecho da Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, delas me valendo para encerrar este artigo:
“Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista dos dramas dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma.”( consulte-se: A Alegria do Evangelho – pg. 49 ).  



terça-feira, 17 de junho de 2014

EXPERIÊNCIA ASSIS

                                    

Ângela e eu, com mais trinta e seis irmãs e irmãos franciscanos, leigos e religiosos, percorrendo por cinco ( 5 ) semanas caminhos percorridos por Clara e Francisco de Assis, nos vales da Úmbria e da Toscana, na Itália.
O percurso não é turístico. Tão pouco se identifica com as denominadas peregrinações religiosas, quando tudo se faz célere e com pouco adensamento espiritual.
A natureza não é só para ser admirada em exclamações, se bem que isso é perfeitamente cabível, mas a natureza é a criação de Deus que, por suas cores, luzes e desenhos me é pelo Criador ofertada para que nela O escute, e o meu espírito assim se abra a me conduzir ao mergulho em mim mesmo, então ao conhecimento de mim mesmo e possa, efetivamente, viver o refrão de canção tão bela e plena de significado – “Irmão Sol, Irmã Lua” -, quando entôo: “sou uma parte de uma imensa vida, que generosa reluz em torno a mim”.
Sim, não me basto a mim próprio: sou uma “parte”, uma “porciúncula” (= porçãozinha), necessitado de viver com, de conviver, embora o mundo, insistentemente, me seduza à crença do bastar-me a mim mesmo na ilusão da auto-suficiência propiciada pela parafernália tecnicológica que, em verdade, muito mais me isola do que me aproxima dos outros.
“A imensa vida” diz-me que hei de ser em abundância porque, só assim, saio do meu ego enclausurado e, sem medo, oferto-me, para dar e receber, na experiência da fraternidade.
Eis a “generosidade”, que é a entrega do que se é, com defeitos e acertos, justamente para que, no desnudar-se de minhas amarras, traduzidas em vícios, medos, obsessões, pouco a pouco eu vá ao encontro, saia de mim, integre-me, assim, na luminosidade Daquele que de Si, apresentou-se a Si mesmo como: “o Caminho, a Verdade e a Vida”.
Pelos vales da Úmbria e da Toscana, caminhei muito: ora comigo mesmo, ora com Ângela, ora com o grupo, e assim orei, também.
O sentimento – não a sensação, alimento do mundo, que é tão provisória e, por isso, logo desaparece – o sentimento de trilhar com Clara e Francisco de Assis é atemporal, não desaparece. Por isso, escrevo estas linhas. O sentimento é fonte inesgotável, que jorra.
Vejam caras leitoras e leitores, que a canção “Irmão Sol, Irmã Lua”, a que antes me referi, é iniciada por estrofes imediatamente anteriores àquela que transcrevi, assim: “doce é sentir em meu coração, humildemente vai nascendo o amor, doce é saber não estou sozinho”.
Aí está: o sentimento é doce e, repito, fonte inesgotável que jorra, quando faz do coração a sua morada.
Muito, mas muito mais, poderia eu partilhar com vocês sobre a “Experiência Assis” – esse foi o nome dado ao percurso feito -, importa, contudo, que se vá, passo a passo, humildemente, como ensina S. Francisco, que ensina também: “faça poucas coisas, mas faça-as bem”.
  

   

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mulher e Homem: mãe e pai.

                         

                                                                     
 É sabido que as defensoras da ideologia de gênero posicionam-se no sentido de que é indeclinável a distinção entre o que é natural e biológico e o que é social e culturalmente construído. Uma vez que o natural e biológico traz a marca da definitividade importa proceder à sua desconstrução pelo acontecer sócio-cultural, que é contingente, propiciando então que tudo se relativize. Assim, conceitos absolutos como mulher e homem; mãe e pai; esposo e esposa; casamento e família não têm mais razão de ser: basta que se fale em uniões: tout court.
Subjacente a essa concepção, motivando-a, partem essas defensoras da ideia de que a palavra sexo traz o ranço negativo da subserviência das mulheres aos homens e a sua permanência, como posta, significa retrocesso às conquistas femininas, daí porque gênero, como construção social, não tem definição e não necessita tê-la. Chega-se a dizer que a família é elaboração da “classe dominante”, expressão hegemônica cujo objetivo radica no apequenamento e menosprezo à mulher.
Tais posições são insustentáveis.
Com efeito, conceitos há que não se relativizam.
Ninguém pode chamar ao dia, noite, assim como não se pode chamar à noite, dia. A natureza, pela presença da luz solar, define o dia; pela ausência da luz solar, a natureza define a noite.
Também assim, a vida fetal já se reconhece, dado o avanço da medicina nos exames intra uterinos, como feminina, presente a formação corpórea definida irrefragavelmente pela natureza, e masculina, pela mesma razão.
Se anomalias acontecem – e pensemos nos casos exíguos dos hermafroditas -, por certo o que é excepcional não pode chancelar a ideologia de gênero porque, nesses casos, o que se dá é a oportunidade ulterior de definição do sexo, e não sua abolição.
Por outra linha de argumentação, não é com a eliminação da definição natural de mulher e homem que se alcançará a igualdade social entre mulher e homem.
A desigualdade social entre mulher e homem, agora sim, é ranço cultural na construção de sociedade machista, que não se abole pela eliminação da sexualidade peculiar a ambos, mas pelo permanente processo educativo, iniciado desde a mais tenra idade que, enfatizando a complementaridade de ambos, justamente porque são diversos, constantemente realce, promovendo, a diretriz segundo a qual a complementaridade sempre pressupõe a absoluta igualdade.
Ainda outro dado de fundamentação, de relevo: a maternidade e a paternidade não conferem aos pais, na relação com os filhos, direito de deles disporem como bem entenderem. Não é assim. Os filhos gerados, sim, é que em relação aos pais e nessa situação têm o direito que lhes seja assegurado: o viver, o proteger, o educar, o sexo naturalmente definido.
Não se pode, portanto, matar o próprio filho, não protegê-lo, não educá-lo, não respeitar o seu sexo naturalmente definido.
Natureza e cultura não são antagônicas.

O que se é, naturalmente, assim se é para se realizar, culturalmente.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Cinquenta anos, depois

                              

Quinze anos de idade, 1º ano do antigo curso Clássico, curso esse com ênfase à área de humanidades – filosofia, história, sociologia, literatura –, jogando futebol e voleibol e, ávido de conhecimento, lendo muito.
Despertando, assim, para a realidade de meu País, o Brasil, com tantas injustiças sociais. Engajando-me, assim, com entusiasmo e consciência na luta pelas reformas de base, ênfase à educacional.
Não à dependência externa. Ampliar a nascente cultura brasileira, expressão eloquente do cinema novo, da música popular brasileira, do teatro Opinião; enraizar a economia brasileira, dignificar a política brasileira.
Coração de estudante palpitando forte na crença de tempo novo, caracterizado pelo fim da miséria, do analfabetismo, do precário sistema de saúde, do Brasil para os brasileiros: “yankees go home”.
1964!
Dezessete anos de idade, 3º ano do antigo curso Clássico, vestibular à porta, escolha pelo curso de Direito, desde então mirando o Ministério Público, exemplo paterno, vocação para o social, para o envolvimento comunitário, assim diminuir as injustiças sociais.
1964!
Golpe de Estado: tropas militares nas ruas e daí espraiam-se: lares invadidos e desrespeitados, Parlamento fechado, Poder Judiciário sem poder algum, manietado; prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos, assassinatos. Agentes públicos, deturpados e desvairados, alimentam-se inclemente e insaciavelmente de tantos corações de estudantes, professores, operários, camponeses, bancários, jornalistas, religiosos, indígenas, advogados, promotores, juízes, políticos, militares e suas vozes, e de tantas e tantos outros profissionais emudecem, porque mortos; calam-se, porque aprisionados.
O tempo. O tempo, que corre, é a esperança real de todos quantos, apesar dos pesares, não desistem de seus ideais de juventude e resistem a cada dia, a cada aflição cotidiana enquanto perduram as trevas. O tempo desmascara a ilusão do ditador de que é detentor da verdade absoluta, por isso que imutável e perene.
Como, magnificamente, disse o Papa Francisco não há verdade absoluta porque ab-solutus do latim significa “o que é solto”; “desconexo”; “separado”; “privado de qualquer relação”. Ora, a verdade é sempre relacional, se expressa e, portanto, assim se faz conhecida no processo de amar a Deus, às irmãs e irmãos, e a todas as criaturas.
O ditador não se relaciona a não ser, equivocadamente, na uniformidade. Não tolera a divergência, exercício perene para o encontro sempre possível.
2014!
Cinquenta anos, depois.
Tenho sessenta e sete anos de idade, mas os quinze anos pulsam, estão presentes, enriquecidos e alargados pelo aprendizado do viver, e comprometido permaneço em combater – esse sim o bom combate – as injustiças sociais a que se concretamente promova, aqui e sempre, a dignidade da pessoa em toda a sua integralidade e por todo o tempo em que viver.