terça-feira, 4 de agosto de 2015

LAUDATO SI



Vou me deter na análise da Carta Encíclica do Papa Francisco, que assim se apresenta – Laudato Si (Louvado seja) -, atendendo a sugestões de pessoas amigas, nesse sentido.
Marcando que esse escrito é instrumento de “diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (Laudato Si – pg. 4, grifei), Francisco reafirma seu testemunho concreto de oferecer-se a mulheres e homens de todos os credos religiosos, ou sem credo algum, em perene empenho de ouvir e dizer, ou seja, de dialogar, sem preconceitos ou predisposições.
Relembra-nos sábias palavras do Papa Paulo VI, em discurso na FAO (Food Alimentary Organization), por ocasião do 25º aniversário desse importante organismo da ONU (Organização das Nações Unidas), proferidas há 45 anos, e completamente confirmadas nos dias de hoje. Disse, e é de se repetir, Paulo VI da possibilidade de uma “catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial”, proclamando:
“a necessidade urgente de uma mudança radical no comportamento da humanidade, porque os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem.” (leia-se: Laudato Si – pg. 4/5).
No magistério do Papa Bento XVI, o Papa Francisco alerta-nos para o grave equívoco que perpetramos.
“O Papa Bento XVI propôs-nos reconhecer que o ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável: o próprio ambiente social tem as suas chagas. Mas, fundamentalmente, todas elas ficam a dever ao mesmo mal, isto é, à ideia de que não existem verdades indiscutíveis a guiar a nossa vida, pelo que a liberdade humana não tem limites. Esquece-se que o homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas também é natureza. Com paterna solicitude, convidou-nos a reconhecer que a criação resulta comprometida onde nós somos a última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade e onde o consumimos somente para nós mesmos. E o desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer instância acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos.” (leia-se: Laudato Si – pg. 7, grifei).
Ver-se unicamente a si mesmo” é a razão de ser da corrupção: tudo, em nós, centralizamos; de todos, a nós, impomos reverência, subjugação, bajulação.
A administração da polis (= cidade), a política, completamente distorcida de sua relevante razão de ser, exalta-nos no poder pelo poder, instrumentalizado na compra e venda de espúrias negociatas. O bem comum, o cuidado com a casa comum são expressões extintas, ou manipuladas por agentes públicos, que se fazem “última instância”, onde tudo lhes pertence, para que de tudo possam consumir, exclusivamente.
Essa concepção ufanista é medíocre como, aliás, são todas as concepções ufanistas.
É medíocre porque completamente incapaz de perceber a sacramentalidade do mundo, na partilha sem fronteiras.
Eis porque o Papa Francisco brinda-nos com palavras do Patriarca Ecumênico Bartolomeu, carregadas de sentido, e de poesia:
“... aceitar o mundo como sacramento de comunhão, como forma de partilhar com Deus e com o próximo em uma escala global. É nossa humilde convicção que o divino e o humano se encontram no menor detalhe da túnica inconsútil da criação de Deus, mesmo no último grão de poeira de nosso planeta.” (leia-se: Laudato Si – pg. 9/10).
Com essa transcrição, preparada está, em absoluta coerência, a reflexão que o Papa dedica a São Francisco de Assis, no contexto de sua Carta Encíclica. Ele diz:
“Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade.” (leia-se: Laudato Si – pg. 10).
Sim, eis a palavra-chave, para mim, de todo o ensinamento evangélico: cuidar.
O Deus-Amor, Jesus, o Cristo (= ungido) ensinou-nos e ensina-nos que amar é cuidar: acolhendo; sentando-se à mesa com; caminhando com; enfim pondo-se em comunhão. Toda comunhão é ato-momento de deixar-se cuidar por Deus para por-se a cuidar da irmã e do irmão.
Colho ideia tão apropriada do Papa Francisco, a propósito:
“A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio.” (leia-se: Laudato Si – pg. 12 grifei).
E, outra passagem, em sintonia fina com a que venho de transcrever:
O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor.” (leia-se: Laudato Si – pg. 12/13, grifei).
Crises, não há porque temê-las. Faz-se mister que existam. Hão de ser vistas como desafios a que melhor nos conheçamos, portanto, a que descubramos nossa verdade comum, construída a cada dia, com o concurso de todos.
Encerro este artigo com consideração final, posta em esperança, com que o Papa Francisco termina a apresentação, tão rica em ensinamentos da Laudato Si. Disse o Papa Francisco, em apelo:
“Espero que esta carta encíclica, que se insere no magistério social da Igreja, nos ajude a reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos pela frente.” (leia-se: Laudato Si – pg. 14).
No artigo do próximo mês, concedam-me, amigas leitoras e amigos leitores, continuar conversando com vocês sobre tão fundamental Documento.




quinta-feira, 18 de junho de 2015

SOBRE BIOGRAFIAS E MENORIDADES

             "Cala a boca já morreu” foi a expressão captada de tudo quanto disse a ministra Carmen Lúcia no julgamento, que autorizou a publicação de biografias, independentemente da autorização do biografado (primeira página do jornal O Globo do dia 11 do mês em curso).
A frase não é feliz porque à expressão “cala a boca já morreu” segue-se “quem manda aqui sou eu”, que perfaz o dito popular, a significar, portanto, comportamento autoritário, comportamento esse criticado pela ministra e seus pares, sob o rótulo de censura prévia, no condicionar-se à autorização da pessoa, retratada em livro, a sua publicação.
Feliz também não é a chamada “cobertura jornalística” de decisões judiciais, porque quase sempre unilateralizada, assim inviabilizando a análise e compreensão dos temas por todos os seus pontos de abrangência e concepções, perde-se no emocionalismo das frases de efeito que, e como está a se ver, muito distante estão de propiciar o conhecimento integral do que se está a discutir.
Considero, a propósito, oportuníssimas as palavras do Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica, “A Alegria do Evangelho”, assim escritas:
“No mundo atual, com a velocidade das comunicações e a seleção interessada dos conteúdos feita pelos meios de comunicação social, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários”. (leia-se: Evangelii Gaudium nº 34 – pg. 31).
Tornando ao tema das biografias, a decisão do Supremo Tribunal Federal absolutizando o direito à liberdade de expressão sobre o direito à privacidade também não está correta.
Direitos tão fundamentais, quais sejam, o direito à privacidade e o direito à liberdade de expressão, quando em confronto, a solução jurídica não se dá pela prevalência de um sobre o outro, mas a solução jurídica aponta para a conciliação entre ambos.
E como se dá tal conciliação?
Simples: quem quer que queira escrever a biografia de outrem, faça-o, mas antes de publicar o escrito, submeta-o ao biografado que, em prazo não superior a 60 (sessenta) dias, há de se manifestar, apresentando suas razões, pelas quais repudia o trabalho do biógrafo. Este, se o desejar, provoque o Poder Judiciário para, então assim, obter a autorização judicial para a almejada publicação.
Equiparam-se os dois direitos fundamentais, impedindo-se que aconteça “o mal já está feito”, que mesmo ulterior e, certamente, bem tardia condenação do biógrafo, irresponsável e mesmo criminoso, justo por ser ulterior e tardia não se faz justa.
Retornemos ao açodamento midiático.
E eis que, premida pelas manchetes de jornais, delegada de polícia dá por concluída investigação sobre o latrocínio que vitima, médico que pedalava sua bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.
Menores são apontados como os autores desse crime.
Desencadeia-se a excitação coletiva, direcionada à solução única, imediatista: que seja reduzida a maioridade penal.
Com o mero jogo de números, de 18 para 16 anos de idade, os prestidigitadores da política, sempre à caça de votos e permanência no poder, no embalo da profusão midiática, vendem esse “elixir da segurança pública”.
Olhos vendados, ninguém suscita o debate sobre a educação em nosso País, objetivando a adoção de medidas sérias e concretas para o resgate de valores fundantes, tais: a primazia da vida, a produção do conhecimento, a manifestação cultural ofertadas indiscriminadamente, e com qualidade.
Medidas sérias e concretas que signifiquem guinada radical (= que vá às raízes e não fique na superfície) no exercer o mandato governamental, cujo primeiro passo caracterize o priorizar a política educacional, a política alimentar, a política de saúde e colocar, em segundo plano, os instrumentos – é isso mesmo que são – os instrumentos econômico-financeiros, medidas sérias não são implementadas.
Em “pátria educadora”, o cenário tem como ator principal o Ministro da Educação e não o da Fazenda. Senão, “pátria educadora” é mais um slogan vazio e oportunista.
Leio que o latrocínio acontecido na Lagoa Rodrigo de Freitas está todo embaralhado. A investigação concluída, não mais está concluída: foi reaberta.
Leio, também, que o Supremo Tribunal Federal decidirá, ainda este ano, sobre a oferta do ensino religioso nas escolas públicas. Bem, esse tema ainda não está decidido; é salutar que o analisemos quando decidido for, desejando que não seja compreendido no: “cala a boca já morreu”. A propósito, e encerrando estas reflexões, mais uma vez tão pertinentes considerações do Papa Francisco:

“256. Ao questionar-se sobre a incidência pública da religião, é preciso distinguir diferentes modos de vivê-la. Tanto os intelectuais como os jornalistas caem, freqüentemente, em generalizações grosseiras e pouco acadêmicas, quando falam dos defeitos das religiões e, muitas vezes, não são capazes de distinguir que nem todos os crentes – nem todos os líderes religiosos – são iguais. Alguns políticos aproveitam esta confusão para justificar ações discriminatórias. Outras vezes, desprezam-se os escritos que surgiram no âmbito de uma convicção crente, esquecendo que os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes, estimula o pensamento, engrandece a mente e a sensibilidade. São desprezados pela miopia dos racionalismos. Será razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade só porque nasceram no contexto de uma crença reli possuem um valor racional, apesar de estarem permeados de símbolos e doutrina religiosos.” ( leia-se Evangelii Gaudium nº 256 – pg. 199/200).    

quarta-feira, 27 de maio de 2015

AÇÃO SOCIAL

                                             
É o compromisso assentado no Capítulo de Avaliação de nossa Fraternidade de São Francisco de Assis.
Compromisso que decorre da gênese mesma do ser franciscano, que bem se pode reconhecer no por-se a caminho, ir “às praças públicas” e testemunhar o Cristo ressuscitado pela pregação da Palavra, sim, a todas e todos, sem distinção, mas igualmente pelo envolvimento consciente e perseverante em ações, em missões concretas, de efetiva fraternidade.
São Francisco nunca esperou, sentado:
“... e Francisco, ouvindo que os discípulos não deviam possuir ouro, prata ou dinheiro, nem levar bolsa ou sacola, nem pão, nem bastão pelo caminho, nem ter calçados ou duas túnicas, mas pregar o Reino de Deus e a penitência, entusiasmou-se imediatamente no espírito de Deus. É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer com todas as fibras do coração.” (leia-se: Tomás de Celano – Primeira Vida de São Francisco – nº 22).
O Papa Francisco, no seu maravilhoso escrito “A Alegria do Evangelho”, justamente abordando “as tentações dos agentes pastorais”, com toda pertinência ensina:
“Hoje, por exemplo, tornou-se muito difícil nas paróquias conseguir catequistas que estejam preparados e perseverem no seu dever por vários anos. Mas algo parecido acontece com os sacerdotes que se preocupam obsessivamente com o seu tempo pessoal. Isto, muitas vezes, fica-se a dever a que as pessoas sentem imperiosamente necessidade de preservar os seus espaços de autonomia, como se uma tarefa de evangelização fosse um veneno perigoso e não uma resposta alegre ao amor de Deus que nos convoca para a missão e nos torna completos e fecundos. Alguns resistem a provar até ao fundo o gosto da missão e acabam mergulhados em um desânimo paralisante.” (Evangelii Gaudium nº 81 – pg. 69, grifei).
Eis porque eu, Claudio, não posso ater-me às reuniões, ainda que de formação para as irmãs e irmãos; de oração com as irmãs e os irmãos; e de convívio fraterno. Assim, em reuniões, mantenho-me no círculo fechado por mais gratificantes que essas reuniões possam ser.
Os textos, escritos nos números 14 e 15 de nossa Regra, são claríssimos:
14. Chamados, juntamente com todos os homens de boa vontade, a construírem um mundo mais fraterno e evangélico para a realização do Reino de Deus e conscientes de que quem segue a Cristo, Homem perfeito, também se torna mais homem, assumam as próprias responsabilidades com competência e em espírito cristão de serviço.
15. Estejam presentes pelo testemunho da própria vida humana, bem como por iniciativas corajosas, quer individuais, quer comunitárias, na promoção da justiça, particularmente no âmbito da vida pública, comprometendo-se com opções concretas e coerentes com sua fé.”
Somos chamados – o Amor, Deus, não é solidão – porque Deus sempre nos chama para que Ele seja amado, concretamente, na construção de um mundo mais fraterno e evangélico, e essa construção só acontece se assumirmos as próprias responsabilidades, vencendo o desânimo, o cansaço, a velhice, porque deixamos que nos invada e nos motive o espírito cristão de serviço. Eis o “martyrio”, ou seja, o testemunho da própria vida, que não nos imobiliza, não nos petrifica, mas nos impulsiona a iniciativas corajosas, para que promovamos a justiça em todos os âmbitos da vida pública.
Os preceitos de nossa Regra – e aqui está tão grande sabedoria de São Francisco – jamais podem ser considerados como normas impositivas, de coação, que nos obrigam como preceitos que estão fora de nós.
Nossa Regra, como mesmo se apresenta no Capítulo II, que se constitui na sua essência, é: “Forma de Vida”.
Portanto, tenhamos todos nossa Regra e demais textos normativos, que se lhe agregam, jamais como imposição fria e abstrata do que, fora de nós, repito, se nos sobrepõe, mas seja nossa Regra ensinamento que habita em nossos corações e, assim, em nossos corações permaneça para que possamos dar frutos, formando “um grande povo”. (leia-se: Tomás de Celano – Primeira Vida de São Francisco – nº 28)


                                                     Paz e Bem!                  

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Há tanto ruído, tanto barulho, tanta velocidade

         

Nessa semana, que findou, aproveitei-a, e bem, para silenciar, no cotidiano.
Há tanto ruído, tanto barulho, tanta velocidade.
Estamos todos centrados na mera informação. Os dedos, nervosos e agitados, não param de teclar. Deglutimos as notícias, sistematicamente bombásticas, produzidas aos borbotões, em avassaladora superficialidade, por isso que delas somos meros repetidores, incapazes de formular juízos críticos e fundamentados.
Como peixes, amontoados nas redes televisivas e digitais, somos espectadores passivos do desenlace fatal: as redes nos apanham, nos fascinam e nos prendem inexoravelmente.
As redes nos uniformizam e nos contingenciam: tudo é relativizado; não há mais certezas de coisa alguma; faz-se o que quiser, quando quiser, onde quiser, conquanto eu me sinta feliz e, assim, tudo se justifica no vago, porque sempre inútil e provisório, sentimento do bem-estar.
Despedaço-me em queda nos Alpes, mesmo que arraste mais de cem pessoas, comigo, nessa insana trajetória, porque já estou despedaçado e tudo o que faço é mentira para mim mesmo.
Disparo, frenética e insistentemente, armas que me chegam às mãos por parte daqueles, que as fabricam, mas contra o sistema dos quais digo combater, e promovo a brutalidade da morte, que me leva à destruição pela destruição, porque já não enxergo crianças, mulheres, idosos: mato porque já estou morto.
Corrompo e compro, corrompo e vendo-me porque me inebrio nas orgias dos sentidos, desfigurados, alçando-me - number one – por sobre todos e tudo, alimentando-me dos esquemas de poder e vassalagem: os sonhos que na juventude sonhei ou os pesadelos que na juventude pesaram-me, aos primeiros aboli, dos segundos vinguei-me extasiando-me na ilusão de que tudo posso.
Há tanto ruído, tanto barulho, tanta velocidade.
Alguém um dia disse: “foi para a liberdade que eu vos fiz livres”.
Nessa semana, que findou, com o irmão-amigo Elmo fui levar alimentos para pequena comunidade de mulheres – as clarissas – e jovem mulher, com sua tez clara, sorriso franco, doçura no falar e o hábito singelo nos fez viver fraternidade.
Nessa semana, que findou, com a amada e companheira Ângela vivemos episódios tão marcantes, porque tão espontâneos, simples e pobres em humilde comunidade.
Nessa semana, que findou, na singela gruta, no jardim daqui de casa, onde São Francisco, de joelhos, abre-me os braços, abraçamo-nos minha mãe Maria, Ângela, filhas e genros, filho, netos, sobrinha e sobrinhos, e sorrimos, e cantamos: a família no encontro das gerações.
Nessa semana, que findou, dentro de mim, a me mover, a frase de São Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl. 5,1).


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CARNAVAL - QUARESMA

Tantas e tantos opõem carnaval à quaresma.                            
Eu não penso assim.
Essa dualidade em contraste, em dicotomia irredutível, é herança, presente e forte até hoje, da concepção platônica, que ensejou e motivou tantas outras concepções, no mesmo sentido fundante, que contrapõe corpo e espírito, mais das vezes satanizando o corpo.
O corpo é divino.
Assim não fosse, e Deus não se teria dele valido – “e o Verbo se fez carne” – para, corporalmente, se revelar e se comunicar a nós, suas filhas e seus filhos, por Ele tão amados, por isso que habitou entre nós, assumindo nossa condição humana: não nos deixou na solidão, nos consagrou em dignidade.
A complementaridade, só possível na heterogeneidade do corpo feminino e do corpo masculino, é o princípio da vida, síntese do encontro da mulher e do homem, no que deve ser a totalidade de cada um para a livre e consciente união conjugal: a entrega-doação.
Por isso, a celebração do carnaval na alegria espontânea, cordial (=  de coração ), fraterna é alegria saudável.
Lamentavelmente, o que é para ser carnaval, alegria espontânea, cordial (= de coração), fraterna, em tantas e tantas situações descamba para o agressivo, o grosseiro, o desrespeitoso, o aviltamento do próprio corpo, assumido como mercadoria exposta para o consumo fugaz.
Eis porque o corpo não pode ser absolutizado.
É limitado e a certeza de seu próprio limite é o fato, inexorável, da morte corporal: “tu és pó e ao pó tornarás”.
Vem-nos, então, em festejo seguinte: a quaresma.
A quaresma não como condenação do carnaval, não como expiação corporal.
A quaresma como abertura e vivência para o espírito, que somos.
Mulheres e homens somos os únicos seres capazes de Deus porque somos os únicos seres capazes de transcender, ou seja, de nos “movimentarmos para o alto” (= trans ascendere ), vale dizer: de sairmos de nós mesmos para a vida em comunhão fraterna, em missionariedade orante, não simplesmente militante, em discipulado que busca caminhar sempre como Jesus caminhou, apesar das limitações e fadigas de cada um de nós. Não desistir; persistir e caminhar sempre.
A quaresma é pausa necessária – jejum (= o conhecimento profundo de si mesmo); esmola (= solidariedade concreta e permanente com todos os que de solidariedade precisam); e oração (= diálogo, com ou sem fórmulas, com Deus) – sem a qual, certamente, no caminho nos perderíamos, ou dele desistiríamos.
Eis porque a quaresma não é simples período de tempo, posto no calendário, em sucessão ao carnaval.
A quaresma santifica o carnaval, sadiamente festejado, prolongando-o em outra dimensão.     


       

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

FAMÍLIA

                                           
Ângela e eu chegamos de Porto Alegre. Celebramos, com tantos outros familiares, 80 anos do tio João Batista, o irmão mais novo de meu pai Geraldo, que foi o irmão mais velho dessa geração dos Fonteles.
Várias gerações encontraram-se em Porto Alegre, que se fez, realmente, porto de chegada e alegre no encontro de tantas e tantos, vindos de lugares diversos.
A família é bem isso, como corretamente realça a Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes: “lugar de encontro de várias gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social” ( leia-se: Gaudium et Spes nº 52, § 2º ).
Sim, lugar de encontro, de acolhida, de ajuda e de aprendizado.
A mulher e o homem, em família a mãe e o pai, que geram a vida, presente na filha, no filho, ou em ambos, naturais ou adotivos, porque a geração não só se consuma no ato biológico, sagrado, da união do corpo e da alma da mulher e do homem, mas também se perfaz no ato de doação, sagrado, da mulher e do homem, expresso no adotar quem abandonado fora.
Somos seres relacionais, porque somos chamados ao amor.
A mulher e o homem, porque filhos do Deus-Amor, que os criou por amor, não existem para a solidão, mas para a comunhão.
Ninguém guarda o amor para si. O amor, necessariamente, é expansão, faz com que saiamos de nós mesmos e experimentemos o êxtase, que é o feliz sentimento de romper e abandonar o eu encarcerado no egocentrismo para que nos unamos, para que nos doemos ao outro - o alter-, ao que é diferente de nós mesmos.
Quem não é tomado de terna e profunda alegria ao admirar o abandono do bebê no regaço materno; ao admirar a euforia do pai erguendo em seus braços a filha, ou o filho; ao admirar o casal, já ancião, caminhando, mãos dadas, mais um dentre tantos caminhos percorridos; ao admirar a mulher e o homem que, nas tribulações do cotidiano, perseveram e, na surpresa do inesperado, expressam em gestos, em atos e, por vezes, mesmo no calar, o profundo significado do: eu te amo.
Vou lhes oferecer, leitoras e leitores, trecho de reflexão que o padre Gustave Desjardins – meu pai espiritual – deixou-nos, por escrito, justo sobre a família:
“A família não é somente a base da sociedade, senão o fundamento da religião. Nas épocas em que a família se desintegra, e não foi só agora, a religião entra em crise. A família é o termômetro da religião, e vice-versa. Quando a família tosse e está com calafrio, vai ver que sua religião está com febre, e vice-versa. Os sacerdotes mais importantes são vocês, pais e mães de família, não os que estão nas igrejas.” (leia-se: Homilias do Padre Gustave Desjardins – vol. 1 – pg. 166 ).
Nos dias de hoje, estamos tão desorientados que a religião é travestida. Com efeito, há os que em seu nome, covarde e brutalmente, assassinam; há os que também se dão ao direito de grosseiramente menoscabar o sentimento religioso dos demais.
Ora, todos quantos professam determinada religião, fazem-no porque não se consideram bastantes em si mesmos. Almejam religar-se ao Deus, que os criou, e os criou, por amor, reafirmo, tanto que não os abandonou, fazendo-se um de nós – Jesus, o Cristo – para os cristãos; ou falando pelos Profetas aos Povos do Livro – Alcorão e Torá -, como o fizeram Maomé e Isaias, respectivamente para nossas irmãs e nossos irmãos muçulmanos, e para nossas irmãs e nossos irmãos judeus.
Não há o Deus da morte, assim como não se pode ridicularizar, menoscabar, o Deus de quem quer que seja. Todavia, a conduta grosseira, de menoscabo, contra o sentimento religioso da pessoa não legitima o assassinato de quem assim se conduziu, mas o seu processamento criminal e cível pelo claro e ilegal abuso no direito de manifestar sua opinião, ou informação. E todo aquele que abusa do direito que tem, pelo abuso perde-o e, portanto, deve ser judicialmente punido.
Há poucos dias atrás, mais precisamente no dia 22 de dezembro de 2014, o Papa Francisco, falando para a Cúria romana, e relevando, à semelhança dos Padres do deserto que redigiram o “catálogo das doenças” a serem combatidas, o que chamou de “doenças curiais”, assim apresentou a primeira “doença”:
“1. A doença de sentir-se imortal, imune, ou mesmo indispensável, descuidando os controles habitualmente necessários. Uma Cúria que não se auto-critica, não se atualiza, nem procura melhorar é um corpo enfermo. Uma normal visita ao cemitério poder-nos-ia ajudar a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais talvez pensassem que eram imortais, imunes e indispensáveis. É a doença do rico insensato do Evangelho, que pensava viver eternamente ( cf. Lc 12, 13-21)  e também daqueles que se transformam em patrões, sentindo-se superiores a todos e não ao serviço de todos.Tal doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do complexo dos Eleitos, do narcisismo que se apaixona pela própria imagem e não vê a imagem de Deus gravada no rosto dos outros, especialmente dos mais frágeis e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e dizer com todo o coração:Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer (Lc 17, 10). ( leia-se a íntegra do Discurso em www.vatican.vagrifos do original ).              



sábado, 13 de dezembro de 2014

CORRUPÇÃO

                                          
“Toda corrupção cresce e, ao mesmo tempo, se expressa em atmosfera de triunfalismo. O triunfalismo é o caldo de cultura ideal de atitudes corruptas, pois a experiência diz que essas atitudes dão bom resultado, e assim a pessoa se sente ganhadora, triunfa. O corrupto se confirma e ao mesmo tempo avança nesse ambiente triunfal. Tudo vai bem. E nesse respirar o bem, usufruir o vento em popa, reordenam-se e se rearranjam as situações em valorações errôneas.” ( pg. 31 – grifos do original ).
Inicio com essa transcrição, presente no opúsculo “Corrupção e pecado”, escrito pelo então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, aos 8 de dezembro de 2005, por ocasião de Assembléia Arquidiocesana.
Palavras verdadeiras.
É o processo que há mais de 50 anos o Brasil vem padecendo, entremeado, por mais de uma vez, de golpes sofridos na busca da formação e consolidação democrática de nosso País, golpes que, ironicamente, brandiram o combate à corrupção como sua impoluta bandeira.
Os tempos midiáticos de hoje ufanam-se em vendavais intermitentes. Necessitam de espetáculo fantástico, como “show da vida”. Seduzem personagens ao topo de seu ego e, então, inebriados pelo poder, pelo prazer e pelo possuir tais personagens assumem-se como inexpugnáveis, inatingíveis por deles emanar o padrão a ser seguido.
Torno ao Papa Francisco:
É justamente esse triunfalismo, nascido de sentir-se medida de todo juízo, que lhe dá vaidade para rebaixar os outros à sua medida triunfal. Explico: em um ambiente de corrupção, uma pessoa corrupta não deixa crescer em liberdade. O corrupto não conhece a fraternidade ou a amizade, só a cumplicidade. ( pg. 32 – grifos do original ).
O triunfalismo é o método mais eloquente de mascarar a verdade porque o triunfalismo não busca a verdade, vez que a reduz a objeto passível de manipulação.
O triunfalismo desperta e motiva a auto-suficiência, que não tolera questionamentos, que abdica do diálogo, alimentando-se de “slogans” preconcebidos e preconceituosos como que a tranquilizar a precariedade, por certo não as tem, de suas convicções. Prossigo com o Papa Francisco:
“O corrupto costuma se perseguir de maneira inconsciente, e é tal a raiva que lhe causa essa perseguição que a projeta nos outros, e, de autoperseguido, transforma-se em perseguidor. São Lucas mostra a fúria desses homens (cf. Lc 6,11) diante da verdade profética de Jesus: “Mas eles encheram-se de furor e indagavam uns aos outros o que fariam a Jesus”. Perseguem impondo um regime de terror a todos aqueles que o contradizem (cf. Jo 9,22) e se vingam expulsando-os da vida social (cf. Jo 9,34-35). Têm medo da luz porque sua alma adquiriu características de verme: vive nas trevas e debaixo da terra. O corrupto aparece no Evangelho jogando com a verdade.” ( pg. 10 ).
A violência pessoal, coletiva, ou institucionalizada é, também, manifestação do ser corrupto.
No entanto, avizinha-se o solstício de verão em nosso hemisfério: o dia 25 de dezembro expressa-o.
O que era trevas, fez-se luz. E a luz veio habitar entre nós para nos convidar a sermos: filhos da luz, como se exprimia o evangelista João, que com Jesus conviveu, intensamente.
Para mim, esse o sentido forte do Natal: a possibilidade de, apesar dos pesares, ser luz e então: reunir a família nas gerações presentes, e orar; orar e ampliar a oração a que envolva amigos e tantos outros mais, para que, de verdade, se possa celebrar a presença de Jesus em nós, para que sejamos melhores na vivência da paz e do bem; portanto, esperando contra toda a esperança e tornar concreta, real, a esperança porque, como aprendo com o Papa Francisco:
“O corrupto não tem esperança. O pecador espera o perdão; o corrupto, no entanto, não porque não se sente em pecado: triunfou.” ( pg. 32 ).
Eis porque lhes desejo: Feliz Natal, pleno de esperança.